Apesar de John Maynard Keynes ser universalmente reconhecido pelo seu contributo para a teoria económica, a sua actividade como investidor foi igualmente notável. Uma das mais completas fontes sobre este tema é a edição das suas obras publicada pela Cambridge University Press em colaboração com a Royal Economic Society, que reúne livros, artigos e correspondência. Os seus escritos dedicados ao investimento encontram-se reunidos no Volume XII.
História
Ao longo da vida, Keynes desempenhou diversos papéis ligados aos mercados financeiros. Iniciou-se muito cedo como investidor particular, adquirindo a sua primeira acção aos 22 anos. Mais tarde, sobretudo depois de abandonar o Tesouro britânico em 1919, tornou-se um participante activo nos mercados, negociando diferentes classes de investimentos. Exerceu igualmente funções de administrador financeiro do King’s College, em Cambridge, e integrou os Conselhos de Administração de companhias seguradoras e de investment trusts sediados em Londres.
Filosofia de Investimento
A sua filosofia de investimento assentava numa visão fundamentalista de longo prazo e o seu universo de investimento era extremamente abrangente: incluia acções britânicas e norte-americanas, obrigações internacionais, divisas, matérias-primas e até investimentos imobiliários.
Um estudo publicado na revista académica Business History Review, da autoria de David Chambers, professor de Finanças da Faculdade de Administração de Cambridge, analisou uma das decisões mais marcantes da carreira de Keynes enquanto investidor: a grande aposta no mercado accionista norte-americano durante a Grande Depressão americana.
Nesse período, Keynes concluiu que as avaliações se tinham tornado suficientemente atractivas para justificar um investimento substancial. Convencido do potencial das empresas norte-americanas, chegou mesmo a trabalhar temporariamente na pequena corretora nova-iorquina Case Pomeroy & Co., com o objectivo de estudar mais profundamente o mercado e identificar oportunidades de investimento.
Portefólio de Keynes
Keynes já vinha a comprar acções desde o início da Grande Depressão de 1929, mas quando o mercado voltou a cair 38,6% em 1937, reforçou ainda mais as suas posições. Em 1939, cerca de metade da principal carteira que geria para o King’s College encontrava-se investida em empresas norte-americanas. Demonstrava especial preferência por acções preferenciais com distribuição de dividendos, investment trusts e, posteriormente, empresas de serviços públicos.

Em vez de dispersar o capital por dezenas de empresas, Keynes optava por concentrar os seus investimentos num número reduzido de participações, adquiridas frequentemente com descontos significativos relativamente ao seu valor patrimonial, como era normal naquela época.

Mantinha essas posições durante longos períodos — muitas vezes oito anos ou mais — aguardando que o mercado acabasse por reconhecer o seu verdadeiro valor. Esta estratégia revelou-se extraordinariamente rentável. No conjunto do período analisado, o retorno líquido acumulado ultrapassou os 2.400%.
Tal como sucede com muitos hedge funds modernos, Keynes recorria frequentemente à alavancagem financeira, utilizando empréstimos para aumentar a exposição aos mercados. Essa abordagem permitia amplificar os ganhos, mas também aumentava significativamente a volatilidade dos resultados obtidos na gestão do seu património pessoal.
Os seus próprios registos mostram que, em 1920, chegou mesmo a apresentar um património líquido negativo, consequência de perdas muito expressivas, sobretudo em posições sobre o marco alemão, a lira italiana e o franco francês. Na prática, esteve muito próximo da falência, o que demonstra a razão pela qual esta prática não é nada recomendável. Ainda assim, conseguiu recuperar de forma relativamente rápida ao longo dos anos seguintes.
Mesmo após essa recuperação, o percurso esteve longe de ser linear. O património atingiu o seu ponto mais elevado em 1935, quando alcançou cerca de 506 mil libras, mas sofreu uma queda muito acentuada no ano seguinte, não voltando a recuperar esse nível máximo.
A sua carreira de investidor desenvolveu-se ao longo de aproximadamente vinte e seis anos, atravessando alguns dos momentos mais conturbados da história económica mundial, nomeadamente: a quebra bolsista de 1929, a Grande Depressão que se lhe seguiu e a Primeira Guerra Mundial.
Apesar deste contexto extremamente adverso, Keynes alcançou uma rendibilidade anualizada de 13,6%. Em comparação, os índices accionistas do Reino Unido e dos Estados Unidos proporcionaram retornos anuais médios de apenas 1,8% e 2,5%, respectivamente. Corrigido pela inflação, o património de £411.238 que possuía em 1945 corresponderia actualmente a cerca de £23 milhões.

Buy and Hold
A sua filosofia de investimento ficou igualmente descrita na obra A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda. Nela, Keynes deixou uma reflexão que ajuda a compreender a disciplina com que encarava o investimento de longo prazo e que explica, em parte, a serenidade com que comprava acções quando o pessimismo dominava os mercados:
«O espectáculo dos mercados financeiros modernos levou-me, algumas vezes, a concluir que, se as operações de compra de um investimento fossem tornadas definitivas e irrevogáveis, como um casamento, salvo em caso de morte ou por outro motivo grave, os males da nossa época seriam, com grande utilidade, aliviados. Isso obrigaria os investidores a dirigir a sua atenção apenas para as perspectivas a longo prazo.»
John Maynard Keynes