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Há uma pergunta que me fazem com uma frequência impressionante: 

Qual é a sua rentabilidade?

Quando me questionam isto, sei imediatamente que estou a falar com um investidor iniciante. Não o digo com tom crítico — todos começamos por algum lado —, mas sim com preocupação. Focar a atenção exclusivamente no rendimento passado é o primeiro passo para cometer grandes erros nos mercados financeiros. 

Casos Históricos

O maior perigo no investimento é assumir que rentabilidades passadas, mesmo quando consolidadas ao longo de vários anos, garantem retornos futuros. A história do mercado financeiro está repleta de gestores que pareciam génios imbatíveis… até deixarem de o ser.

Lembremo-nos de alguns casos históricos que ilustram bem o perigo de olhar apenas para a tabela de rentabilidades:

  • Ark Innovation ETF (ARKK): Entre 2016 e o início de 2021, gerou retornos fabulosos de mais de 600%. Atraiu milhares de investidores no topo do entusiasmo. O resultado subsequente? Uma queda superior a 75% que destruiu o capital de quem entrou iludido pelo histórico recente.
  • 44 Wall Street Fund: Na década de 70, foi o fundo com melhor desempenho nos EUA, acumulando valorizações extraordinárias devido à concentração agressiva em acções de crescimento e ao uso de margem. Na década seguinte, com a subida das taxas de juro, desvalorizou mais de 73%, tornando-se um dos piores fundos da história americana.
  • Long-Term Capital Management (LTCM): Gerido por prémios Nobel da Economia, apresentava rendimentos anuais consistentes acima de 30% na década de 90. Em 1998, a alavancagem excessiva implodiu o fundo, com perdas de $4,6 mil milhões de dólares em escassos meses.
  • Munder NetNet Fund: Em 1999, no auge da bolha dot-com, rendeu 175% num só ano. Entre 2000 e 2002, o fundo perdeu cerca de 90% do seu valor.

Todos estes fundos exibiam rentabilidades passadas impressionantes, fascinando os investidores que buscavam apenas o número mais alto da tabela. E todos falharam naquilo que realmente importa: a gestão de risco e a estratégia de investimento.

O Que Podemos Garantir?

O mercado de acções é incerto por natureza. Ninguém pode garantir resultados futuros, e quem o fizer está a mentir-lhe.

O que posso garantir — quer no trabalho diário de análise na MOAT Research, quer na estrutura do PPR que estamos a constituir — não são rentabilidades futuras, mas sim a qualidade do processo de selecção e uma estratégia de investimento racional, rigorosa e de baixo risco (dentro do universo da renda variável).

Focamo-nos em negócios com vantagens competitivas duradouras (moats), balanços sólidos, elevados índices de retorno sobre o capital investido e avaliações sensatas. E no yield, é claro — a remuneração do accionista em forma de dividendos e buybacks. O nosso objectivo não é vencer a corrida de 100 metros num ano de euforia para depois capitular no primeiro mercado de baixa, mas sim optimizar a preservação e a multiplicação do capital a longo prazo, com o menor risco possível.

Da próxima vez que avaliar um investimento ou a sua própria carteira, mude a pergunta. Em vez de “quanto rendeu?“, questione:

Como foi obtido esse rendimento e qual é o risco subjacente?

Hélder Pereira

Hélder Pereira é analista de mercados financeiros. Foi nomeado para os Prémios Rankia Portugal 2024 e 2025 na categoria de "Melhor analista financeiro"; tem mais de 25 anos de experiência nos mercados financeiros, muitos deles dedicados à consultoria e gestão de capitais privados para family offices; formação em Contabilidade e em Direito; e conhece extensivamente a tradição do "value investing", desde Benjamin Graham a Warren Buffett, e mais além: Peter Lynch, Terry Smith, Luiz Barsi, entre outros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.