Skip to main content

Quando Ronald Read faleceu em Junho de 2014, aos 92 anos, a pequena cidade de Brattleboro, em Vermont, ficou em estado de choque.

O homem que todos conheciam como um pacato funcionário de um posto de abastecimento e, mais tarde, como porteiro na JCPenney, tinha acumulado uma fortuna de quase 8 milhões de dólares. Sem heranças nem golpes de sorte, Read construiu o seu império através de três pilares: frugalidade extrema, poupança rigorosa e uma paciência de ferro no mercado de acções.

O Estilo de Vida de um Investidor Frugal

Aqueles que privavam com Ronald recordam-se de um homem que levava a poupança ao limite. Usava alfinetes para remendar o casaco, conduzia um Toyota Yaris usado e chegava a estacionar longe do destino para evitar pagar parquímetros. “Se ele pudesse poupar um cêntimo, poupava”, comentaram os responsáveis pela administração da sua herança.

Contudo, este desapego pelos bens materiais não era sinal de escassez, mas sim de uma escolha consciente: Ronald preferia ser dono de empresas do que consumidor de produtos.

O Poder dos Certificados Físicos e a Inércia Positiva

Ao contrário dos investidores actuais, que negoceiam através de aplicações no telemóvel, Read possuía uma pilha de certificados de acções físicos com cerca de 13 centímetros de espessura, guardados num cofre.

Esta “dificuldade” em vender os títulos foi, ironicamente, o seu maior aliado.

Como não existia a facilidade do trading electrónico, Ronald não se deixava influenciar pelas flutuações diárias do mercado. Ele não via as cotações a subir e a descer num ecrã; limitava-se a receber os cheques dos dividendos pelo correio e a reinvesti-los em mais acções. Esta “barreira” à venda forçou-o a manter uma visão de décadas, permitindo que o tempo fizesse o seu trabalho.

A Estratégia: Comprar o que se conhece e Reinvestir

Ronald Read era um seguidor nato da filosofia de “comprar o que se conhece”. Evitava o sector tecnológico, que não compreendia, e focava-se em empresas sólidas que distribuíssem lucros de forma consistente. A sua carteira estava diversificada por 95 empresas de sectores vitais.

Embora fosse diversificado, Ronald aplicava a máxima: “Diversifica, mas deixa os teus vencedores vencerem”. Com o tempo, as suas melhores posições cresceram tanto que acabaram por concentrar um terço do valor total da carteira.

Aceitar as Falhas e Focar no Longo Prazo

Nem todos os investimentos de Read foram bem-sucedidos. Ele detinha acções do Lehman Brothers quando este faliu em 2008. No entanto, a sua resiliência era tal que encarava estas perdas como parte do negócio. Por outro lado, investimentos modestos feitos nos anos 50, como na Pacific Gas & Electric, transformaram-se em quantias astronómicas décadas depois, não só pela valorização do título, mas sobretudo pelos dividendos acumulados.

A Biblioteca como Ferramenta de Pesquisa

Sem acesso à Internet, Ronald utilizava a biblioteca local para ler o The Wall Street Journal e o Barron’s. Discutia ideias com amigos e consultores de confiança, mantendo sempre uma postura de aprendiz.

Ao falecer, Ronald Read deixou a maior parte da sua fortuna a um hospital e à biblioteca que tanto o ajudou. Deixou-nos também uma lição imortal: o mercado de acções não é um casino para quem quer ficar rico depressa, mas sim um veículo de transferência de riqueza para quem, como Ronald, tem a disciplina de esperar.

Hélder Pereira

Hélder Pereira é analista de mercados financeiros. Foi nomeado para os Prémios Rankia Portugal 2024 e 2025 na categoria de "Melhor analista financeiro"; tem mais de 25 anos de experiência nos mercados financeiros, muitos deles dedicados à consultoria e gestão de capitais privados para family offices; formação em Contabilidade e em Direito; e conhece extensivamente a tradição do "value investing", desde Benjamin Graham a Warren Buffett, e mais além: Peter Lynch, Terry Smith, Luiz Barsi, entre outros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.