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Quando falamos de recompras de acções próprias (buybacks), é fácil pensar que estamos perante conceitos relativamente recentes, mas o Shareholder Yield* ou Net Payout Yield – a remuneração do accionista em forma de dividendos e buybacks – tem raízes muito antigas.

*Nota: o Shareholder Yield pode incluir a variação da dívida líquida. Neste caso, não; o termo é usado como sinónimo de Net Payout Yield (dividendos + buybacks).

Origens históricas

Um dos exemplos mais primitivos do Shareholder Yield encontra-se no primeiro fundo de investimento do mundo, o Eendragt Maakt Magt (“A União Faz a Força”).

Fundado em 1774 por um corretor holandês chamado Abraham van Ketwich, o fundo oferecia aos pequenos investidores acesso de baixo custo a uma carteira diversificada de obrigações e outros títulos.

Embora o prospecto do fundo prometesse um dividendo anual de 4%, também delineava um programa inovador de recompra de acções próprias (buybacks). O historiador financeiro K. Geert Rouwenhorst, especialista nestes primeiros fundos de investimento, nota:

“Not all investment income from the underlying portfolio would be passed on to the fund investors as dividends; rather, a portion was to be used to retire [repurchase] shares by lot at a premium over the par value of the shares and also to increase dividends to some of the outstanding shares.”

Como surgiu o “Yield” no mercado accionista?

O mercado accionista moderno nasceu no início do século XVII, com a negociação das acções da Companhia Holandesa das Índias Orientais (VOC – Vereenigde Oostindische Compagnie) na Bolsa de Amesterdão, a partir de 1602.

Apesar do seu enorme poder económico e do monopólio que detinha sobre várias rotas comerciais, a empresa demorou vários anos a distribuir dinheiro pelos accionistas. O primeiro dividendo, em 1610, foi pago de uma forma bastante peculiar: em especiarias. Só em 1612 surgiu um dividendo em dinheiro.

A questão, contudo, não era apenas receber dividendos. Desde os primeiros anos da VOC, os accionistas começaram também a preocupar-se com a forma como a administração utilizava o capital da empresa.

Um dos primeiros críticos foi Isaac Le Maire, frequentemente considerado o primeiro short seller da história. A partir de 1609, criticou publicamente a administração da companhia, acusando-a de acumular dívida, ignorar os accionistas e permitir que os directores enriquecessem à custa da empresa.

Outros accionistas fizeram críticas semelhantes. Em 1622, por exemplo, investidores acusaram a administração de desperdiçar capital na construção de navios e de comprar bens a preços excessivos. Defendiam que a empresa deveria recorrer a leilões públicos para conseguir preços mais baixos.

O problema era, portanto, exactamente o mesmo que encontramos hoje: quem está no controlo da empresa tem de demonstrar que sabe utilizá-lo em benefício dos seus proprietários.

Dividendos como mecanismo de disciplina

Esta relação entre distribuição de capital e qualidade da gestão é importante.

Quando uma empresa paga dividendos, o dinheiro deixa de estar sob o controlo da administração e regressa aos accionistas. A gestão fica, assim, com menos capital disponível para tomar decisões que podem ou não criar valor.

Foi precisamente este tipo de preocupação que esteve na origem de algumas das primeiras regras impostas à VOC. Uma nova carta da companhia, em 1623, aumentou a supervisão sobre a administração, introduziu auditorias regulares e estabeleceu uma política de dividendos mais frequente.

Ou seja, a distribuição de capital não servia apenas para remunerar os accionistas. Servia também para disciplinar a gestão e para salvaguardar os interesses dos accionistas (como explica a teoria da agência).

Evidências empíricas

Estudos realizados pela O’Shaughnessy Asset Management (que agora pertence à Franklin Templeton), indicam que uma das estratégias mais eficazes de selecção de acções nos Estados Unidos nas últimas décadas tem sido comprar empresas que estão a recomprar quantidades significativas das suas próprias acções, além de pagar dividendos.

Crescimento de 1 dólar investido em 1982 em quatro estratégias diferentes de acções de grande capitalização:

  • S&P 500 – $35
  • Top 10% das grandes empresas por Dividend Yield – $51
  • Top 10% das grandes empresas por Shareholder Yield (dividendos + buybacks) – $157
  • Grandes empresas com o melhor Shareholder Yield, depois de eliminar metade do universo de acções com a pior qualidade – $224

As empresas que realizaram as maiores recompras de acções no ano anterior superaram significativamente o mercado no ano seguinte, e fizeram‑no com baixa volatilidade, enquanto as empresas que emitiram grandes quantidades de capital tiveram desempenhos muito inferiores.

Consulte aqui o estudo:

A nossa lista de “yields”

Passaram mais de 250 anos, mas a mecânica da criação de riqueza permanece inalterada: o que funcionava no século XVIII continua a funcionar hoje. Por isso, se procura aplicar estes mesmos princípios e quer ter acesso à nossa lista proprietária de empresas de elevado Net Payout Yield, consulte o link da lista de acções e veja as nossas TOP PICKS:

Nota: a MOAT Research é a única plataforma no mundo a disponibilizar informação sobre o “net payout yield” líquido das empresas, ajustando o cálculo pelos factores que distorcem o rácio (como as emissões de acções que não passam pela demonstração de fluxos de caixa, os interesses minoritários, etc.), algo que plataformas concorrentes (como a YCharts, Bloomberg ou Koyfin) não fazem.

Hélder Pereira

Hélder Pereira é analista de mercados financeiros. Foi nomeado para os Prémios Rankia Portugal 2024 e 2025 na categoria de "Melhor analista financeiro"; tem mais de 25 anos de experiência nos mercados financeiros, muitos deles dedicados à consultoria e gestão de capitais privados para family offices; formação em Contabilidade e em Direito; e conhece extensivamente a tradição do "value investing", desde Benjamin Graham a Warren Buffett, e mais além: Peter Lynch, Terry Smith, Luiz Barsi, entre outros. Por decisão pessoal, o autor do texto não escreve segundo o novo Acordo Ortográfico.